Refazendo a História: O Papel da Assembleia do Povo
No dia 20 de janeiro de 2026, a Zona Sul de São Paulo será novamente o cenário de um evento que remete a um marco importante na luta popular do Brasil. O Colégio Santa Maria sediará uma cerimônia que celebra os 50 anos da Assembleia do Povo, um evento que, em 1976, contou com a participação de aproximadamente 5 mil pessoas do Movimento do Custo de Vida (MCV) durante os tempos repressivos da ditadura militar. Essa assembleia não só incentivou a resistência contra a alta dos preços que afetava a população na época, mas também evidenciou a atuação das mulheres das comunidades periféricas, que desempenharam um papel crucial na luta por direitos fundamentais em um período tão obscuro.
Recordando os 50 Anos de Luta e Compromisso
A celebração deste evento será uma oportunidade para revisitar os testemunhos de quem viveu aquela época, assim como ativistas e familiares de participantes da Assembleia. A programação do dia incluirá um painel de discussão com figuras históricas do MCV, uma placa em homenagem ao evento e uma apresentação cultural do Grupo de Teatro da Vila Remo. O local escolhido, um corredor que conecta as salas de aula à capela da escola, remete diretamente ao espaço onde as vozes dos moradores de periferia clamavam por justiça e dignidade.
O Impacto das Mulheres na Resistência do MCV
O Movimento do Custo de Vida foi fundamental para trazer visibilidade às questões sociais enfrentadas por aqueles que residem nas periferias de São Paulo. Ao contrário do que era comum na época, quando sindicatos e organizações estudantis lideravam mobilizações, o MCV foi criado por mulheres, muitas delas donas de casa que nunca haviam participado da esfera política, mas que se viram forçadas a agir devido à severa crise econômica. Essas mulheres, organizadas em clubes de mães em bairros como Jardim Ângela e M’Boi Mirim, discutiam e agiam em prol de soluções para os problemas locais, resultando em uma mobilização poderosa em resposta à carestia.

A pedagoga Luciana Dias, que na época tinha apenas 8 anos, recorda que enquanto os adultos organizavam a assembleia, ela brincava nos corredores da escola. Hoje, Luciana se junta à homenagem em memória de sua mãe, Ana Dias, que foi uma das líderes do movimento. Para Luciana, lembrar desse legado é essencial não apenas para preservar as histórias pessoais, mas também para transmitir lições valiosas às novas gerações sobre a importância da ação comunitária.
A Memória do Colégio Santa Maria como Refúgio
O Colégio Santa Maria, escolhido para abrigar o evento em 1976, tem grande significado não apenas pela sua capacidade de acolher um número tão significativo de participantes, mas também por ter sido um refúgio importante para aqueles perseguidos durante a ditadura militar. As irmãs da Congregação das Irmãs da Santa Cruz, que fundaram a instituição, forneceram abrigo e proteção a muitas pessoas em situação de vulnerabilidade dessa época. A história do colégio, entrelaçada à luta das mulheres pela dignidade e direitos, reforça a união entre resistência e solidariedade.
Mobilização Comunidade: Vozes da Periferia
O MCV emergiu como resposta à dura realidade enfrentada pelas famílias das periferias, que lidavam com a escassez de recursos essenciais. Luciana Dias compartilha que o movimento começou nas comunidades, onde as mulheres, organizadas em clubes de mães, se reuniam para discutir questões locais. Essas reuniões culminaram em ações concretas, incluindo a elaboração de uma carta coletiva, que foi assinada pelas “mães da periferia” denunciando o aumento dos preços da cesta básica e exigindo medidas eficazes das autoridades.
O impacto dessas iniciativas foi notável. As cartas, inicialmente pessoais, ganharam notoriedade quando foram lidas em programas de rádio, impulsionando uma significativa campanha de coleta de assinaturas em busca de um abaixo-assinado contra a carestia. No ápice do movimento, milhares de pessoas participaram, culminando em uma assembleia que não só clamou por justiça, mas também se tornou um símbolo de união e força comunitária.
Solidariedade em Tempos de Crise Econômica
A iniciativa do MCV reflete a solidariedade que floresceu em tempos desafiadores, reforçando a ideia de que a coletividade é fundamental para enfrentar crises. O evento deste sábado não é apenas uma lembrança, mas um ato de resistência contra a narrativa que busca desmerecer as contribuições das vozes populares na construção da democracia brasileira. A irmã Michael Nolan, integrante da Congregação das Irmãs da Santa Cruz e defensora dos direitos humanos, mencionou a importância de revisitar esses momentos históricos, que refletem os desafios contemporâneos relacionados à coesão social e à polarização política.
Preservando Histórias: O Legado da Assembleia
A importância do ato programado para este sábado vai além da comemoração; ele representa uma necessidade de preservar a memória de eventos que moldaram a história do Brasil. Relembrar a Assembleia do Povo se torna essencial para entender que o diálogo e a convivência são vitais para a construção de uma sociedade mais justa. O evento reunirá figuras históricas e novos ativistas, servindo como um forte lembrete de que o ativismo e a inclusão social devem estar sempre presentes nas discussões sobre a democratização.
A Celebração do Ativismo Atual
O evento também é uma chance de revitalizar as discussões sobre a importância das políticas públicas e da intervenção em áreas habitacionais, a fim de garantir a continuidade da escuta das vozes periféricas. É esperado que a Prefeitura e o Governo do Estado de São Paulo vejam essas mobilizações como uma oportunidade para refletir sobre a história e buscar rompimentos com a desinformação, fortalecendo a cidadania. Ao lembrar os passos dados pelo MCV, a expectativa é que novas iniciativas emergem, ecoando as vozes do passado e projetando novas possibilidades para um futuro mais inclusivo.
Democratização e A Luta pela Inclusão Social
A luta pela inclusão social e pelos direitos das comunidades periféricas continua a ser um desafio premente. O evento marca a necessidade de promover e expandir o diálogo entre as esferas governamentais e a população, assegurando que as vozes historicamente marginalizadas sejam ouvidas e respeitadas. Isso envolve um compromisso contínuo em articular políticas que atendam às demandas dessas comunidades, permitindo que suas histórias e lutas sejam reconhecidas como parte integrante da nação.
Próximos Passos: O Futuro do MCV e as Vozes
À medida que a cidade se prepara para as celebrações dos 50 anos da Assembleia do Povo, o foco não deve ser apenas o passado, mas sim a construção de um futuro onde as lições aprendidas sejam amplificadas nas novas gerações. Espera-se que esses eventos possam fomentar a participação ativa nas tomadas de decisão, e que espaços sejam criados para que dialoguem as necessidades e opiniões das comunidades. A expectativa é que o legado do MCV continue a inspirar e convocar as vozes da periferia, garantindo que suas lutas e conquistas não sejam esquecidas, mas, ao contrário, se tornem a base para um desenvolvimento social justo e igualitário.


