A Caminhada pela Vida e pela Paz reuniu movimentos sociais e populares no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, em 2 de novembro de 2026. Na 31ª edição, a mobilização homenageou vítimas da violência e defendeu crianças e adolescentes.
Realizado anualmente no Dia de Finados, o ato percorre o caminho entre a Paróquia Santos Mártires e o Cemitério São Luiz. A iniciativa foi criada há 31 anos pelo padre Jaime Crowe, um dos fundadores do Fórum em Defesa da Vida.
Moradores e integrantes de movimentos da região participaram do percurso, que também teve saídas no Campo Limpo e no Capão Redondo. Regina Maurício, de 71 anos, caminhou pela primeira vez em homenagem ao neto Levi, morto aos 18 anos em dezembro de 2024.
A edição de 2026 colocou no centro do debate a proteção integral de crianças e adolescentes. Organizações participantes defenderam prevenção à violência e políticas públicas de educação e saúde, em meio a dados sobre mortes violentas de jovens no país.
Homenagem às vítimas e defesa da infância
Diante da Paróquia Santos Mártires, a coordenadora do Fórum em Defesa da Vida, Regina Paixão, perguntou quem participava da caminhada pela primeira vez. Entre as pessoas que não levantaram a mão havia moradores que acompanham o percurso há um, dois, quinze anos ou mais.
Regina Maurício contou que, apesar de ter restrições de mobilidade, decidiu caminhar pela juventude. Aos 71 anos, afirmou que os jovens também precisam se engajar na luta por seus direitos.
A mobilização começou por volta das 8h30, com música ao vivo e participantes levando cruzes e cartazes. Crianças, jovens e pessoas idosas, algumas com mobilidade reduzida, seguiram pelas ruas em direção ao Cemitério São Luiz.
Fitas brancas distribuídas pela organização foram identificadas com nomes de pessoas queridas, vítimas ou não da violência. Além da concentração na paróquia, grupos partiram do Centro de Direitos Humanos e Educação Popular, no Capão Redondo, e da Associação de Moradores do Jardim Casa Branca e Adjacências, na Vila das Belezas; o trajeto durou cerca de duas horas.
Violência contra crianças e adolescentes em debate
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que quase 21% das mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes registradas no Brasil em 2025 foram provocadas por policiais. A maioria das vítimas era formada por meninos negros.
De acordo com o levantamento, o total de mortes violentas nessa faixa etária caiu 10,8% em 2025, mas as mortes causadas por policiais aumentaram e passaram a representar a segunda principal causa. Os dados foram apresentados no ato para sustentar a cobrança por proteção e políticas de prevenção.
Regina Paixão explicou que a escolha do tema também se relaciona à violência vicária, em que um agressor usa filhos, dependentes ou outros parentes para causar sofrimento a uma mulher. Ela citou o trabalho local do Centro de Defesa da Mulher e do Serviço de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítima de Violência.
Segundo Paixão, crianças e adolescentes levaram ao debate demandas por serviços de acolhimento na periferia e pela proteção contra a violência policial. A organizadora afirmou que a falta de equipamentos voltados a esse público e os casos de violência vicária preocupam os movimentos da região.
Educação, saúde e prevenção na zona sul
Na Escola Estadual Professor Luís Magalhães de Araújo, o poeta e professor Jeferson Santana criticou o encerramento das aulas noturnas. Ele disse que estudantes que trabalham estão ficando sem vagas para estudar e defendeu prioridade para a educação.
Em frente à UBS Jardim Thomas, Karollayne Alves, coordenadora-geral da Rede Ubuntu de Educação Popular, abordou o acesso de crianças e adolescentes à saúde física e mental, sobretudo em situação de vulnerabilidade social. Ela também apontou a falta de suporte às famílias que cuidam de jovens com deficiência.
Outra parada ocorreu no Campus Jardim Ângela do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), inaugurado em março e voltado à região do M’Boi Mirim. A diretora-geral, Denilza da Silva Frade, descreveu a unidade como resultado da luta popular e afirmou que o campus busca atender a classe trabalhadora.
O campus oferece cursos de Enfermagem, Farmácia, Produção Cultural e Design Gráfico. Frade afirmou que a unidade pretende formar profissionais e oferecer aos adolescentes da região novas possibilidades de formação; a marcha também passou pela Paróquia Comunidade Santo Antônio antes de seguir ao cemitério.
Cemitério São Luiz e legado de Jaime Crowe
No Cemitério São Luiz, sob chuva, os participantes amarraram faixas com nomes de pessoas falecidas a uma cruz branca e acompanharam a leitura de um manifesto. O texto defendeu a proteção integral de crianças e adolescentes, a prevenção à violência e a oposição à redução da maioridade penal, reivindicando “menos velórios e mais formaturas”.
Dados do Serviço Funerário do Município de São Paulo citados em uma reportagem da Deutsche Welle indicaram que cerca de 56% dos sepultamentos no São Luiz, entre 2019 e 2022, foram de pessoas negras. Nos cemitérios da Consolação e de Pinheiros, o percentual não chegava a 3%; no São Luiz, 34% dos sepultados tinham menos de 50 anos, ante cerca de 5% nos dois cemitérios centrais.
Uma reportagem publicada em fevereiro de 1999 relatou que coveiros do São Luiz abriam covas durante a semana prevendo as mortes ocorridas entre sexta-feira e domingo. Dois anos antes, Jardim Ângela, Capão Redondo e São Luiz haviam sido considerados pela Organização das Nações Unidas entre os locais mais perigosos do mundo.
Um dos fundadores do Fórum em Defesa da Vida e da Sociedade Santos Mártires, o padre irlandês Jaime Crowe chegou ao Brasil em 1969, aos 24 anos, e se tornou referência na defesa dos direitos humanos. Ele morreu em Limerick, na Irlanda, em 20 de fevereiro de 2023, aos 77 anos; Regina Paixão atribuiu à mobilização popular conquistas como o Hospital do M’Boi Mirim, bases comunitárias da Polícia Militar e cobertura total das UBS.


