Trilha da Saudade em SP propõe reflexão sobre o luto

A Trilha da Saudade, no Cemitério Memorial Parque das Cerejeiras, na zona sul de São Paulo, propõe uma caminhada para refletir sobre o luto e homenagear pessoas que morreram. A atividade é gratuita e aberta ao público.

Criada em junho de 2026 por duas psicólogas, a iniciativa percorre áreas de natureza do cemitério, no Jardim Ângela. Segundo a reportagem, a proposta estimula a lembrança e o resgate do vínculo com quem morreu, sem abordar questões religiosas.

O percurso acontece durante todo o ano e pode ser feito com a condução de uma psicóloga ou individualmente, conforme relata a reportagem. Entre os participantes estão pessoas que perderam familiares em diferentes circunstâncias.

A caminhada também abre espaço para conversar sobre como cada pessoa vivencia a perda e sobre formas de manter o vínculo com quem morreu. A reportagem apresenta relatos de participantes e informações sobre outras iniciativas de acolhimento a pessoas enlutadas.

Percurso em seis estações usa a natureza para abordar o luto

Na Trilha da Saudade, a psicóloga especialista em luto Lélia de Cássia Faleiros Oliveira, 64, conduz um percurso de 40 minutos a uma hora. São seis paradas: Coração de Homenagens, Orquidário, Bosque, Mirante, Praça da Eternidade e Lago com Carpas.

No Coração de Homenagens, a proposta é recuperar uma lembrança feliz e escrever uma mensagem para a pessoa que morreu. No Orquidário, Oliveira convida os participantes a pensar no tempo particular de cada experiência de luto.

O Bosque aborda o perdão e as palavras que não foram ditas; no Mirante, a atividade propõe imaginar uma notícia que a pessoa gostaria de compartilhar com quem morreu. Já a Praça da Eternidade sugere uma homenagem simbólica que relaciona a dimensão do luto à ideia de eternidade.

A última parada é o Lago com Carpas. Segundo Oliveira, a resistência desses peixes a correntezas serve de metáfora para os altos e baixos do luto; ela também relaciona o contato com a natureza aos sentidos, como o cheiro e a voz de familiares que morreram.

Participantes relatam perdas e o acolhimento encontrado na caminhada

A diarista Clarice Ribeiro, 61, conta que perdeu a mãe cinco meses antes da entrevista, o filho um ano e oito meses antes e dois irmãos em momentos diferentes desde a pandemia de Covid. Um deles morreu em decorrência da doença, e o outro foi assassinado.



Ribeiro diz que a caminhada faz bem à saúde mental e que encontra ali outras pessoas que também passaram por perdas. Apesar de ouvir das irmãs que deveria parar de ir, ela afirma que leva flores todas as semanas, inclusive quando chove.

Também frequenta a atividade a estudante de psicologia Roquelina da Conceição Silva, 50, que tenta aceitar, desde 2018, as mortes do irmão, do pai e de dois sobrinhos. Ela relata que o irmão morreu em um acidente, o pai teve um infarto e uma sobrinha morreu ao nascer.

O sobrinho mais novo morreu afogado aos 23 anos, três anos antes da entrevista. Silva afirma que o contato com o verde lhe dá esperança e alívio; a reportagem acompanhou um grupo de 20 pessoas no domingo, 20 de setembro.

Psicóloga questiona fases obrigatórias e destaca redes de apoio

Para Oliveira, a morte não apaga o vínculo com a pessoa: a relação pode continuar de outra forma, conforme a história de cada enlutado. Ao falar sobre como apoiar alguém, a psicóloga recomenda, em declaração à reportagem, oferecer escuta e perguntar se a pessoa precisa de algo.

A especialista afirma que a psicologia deixou de tratar as chamadas fases do luto, como a raiva, como etapas obrigatórias. Na avaliação dela, cada experiência é singular: até irmãs que perderam a mesma mãe podem viver processos diferentes, porque suas histórias com ela não são iguais.

Oliveira também defende uma abordagem mais natural da morte, em vez de esconder o assunto das crianças. Sobre religião, diz que algumas pessoas questionam a própria fé durante o luto, enquanto a crença também pode ajudar a aliviar a angústia.

Informações sobre a atividade podem ser obtidas pelos telefones (11) 4040-5767 e (11) 4040-5550. Em Guarulhos, o Grupo de Apoio ao Enlutado do Primaveras promove encontros online gratuitos, geralmente no último sábado de cada mês, conduzidos por psicólogos e outros especialistas e abertos à comunidade.

Serviço

  • Evento: Programação de Dia de Finados no Cemitério Memorial Parque das Cerejeiras
  • Data: segunda-feira, 2 de novembro de 2026
  • Horário: das 9h30 às 17h20
  • Local: avenida Parque das Cerejeiras, 300
  • Entrada: gratuita


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